Origem

As primeiras sementes do Araçá foram lançadas no solo fértil da CEUNES e nas ruas de São Mateus. O Fruto do Estágio Curricular em turmas das séries iniciais e de pré-escola dos alunos dos cursos de Pedagogia e Biologia, em 1994, o projeto visava à questão educacional ligada à cidadania. Ou seja, consistia em ensinar conceitos a partir da visão de que o brinquedo é o caminho para a construção do conhecimento. Os conteúdos seriam "tocados" a partir do lúdico, construindo assim o "sentir-se capaz de", o "sentir-se potente para" aprender e criar. Não consistia apenas na substituição do espaço escolar ou na assistência alimentar às crianças. Ao longo de sua realização o Projeto resistiu a vários obstáculos. O que pode (e deve) ser perfeitamente admissível em se tratando de algo novo, transformador.O período inicial ou "paquera pedagógica" foi um pouco de ansiedade e de espera, pois era preciso vencer a resistência das crianças à aproximação dos educadores.Após alguns encontros, o Araçá já havia encantado algumas crianças que estavam entusiasmadas com as brincadeiras feitas pelos educadores. Percebeu-se assim que aquelas crianças não eram hostis como se imaginava.

Nas ruas de São Mateus, o vento soprava a favor do Araçá: os comerciantes e a comunidade valorizaram muito a idéia de "ensinar coisas para esses meninos".A construção de uma prática que possibilitasse conhecer a realidade das crianças de rua foi então fator determinante para que o projeto fosse consolidado. A maioria das crianças envolvidas no Projeto já estivera ou ainda estava na escola. Algumas sabiam ler, mas quase todas resistiam às atividades de leitura e produção de textos. Percebeu-se assim que elas não eram muito diferentes daquelas que estavam nas escolas públicas. Como todas moravam no bairro Porto e pertenciam a famílias de baixa renda, os educadores foram até lá para as conhecer melhor.Partindo do lúdico, do brinquedo, do "papo pedagógico" chegou-se aos conceitos básicos da Matemática, da Língua Portuguesa, Ciências Biológicas e Sociais. A simples confecção de uma pipa gerava a abordagem do conceito de medidas, das formas geométricas. O bingo possibilitava contato com os números. O passeio pelo Porto de São Mateus permitiu a discussão sobre plantas medicinais, colonização da cidade e a origem negra da população. A dança da capoeira gerou a primeira produção escrita de algumas crianças que nunca haviam sido estimuladas a produzirem um texto.A precariedade das condições familiares e a negligência a que as crianças eram submetidas, a usurpação de seus direitos, especialmente o direito a uma educação de qualidade (ou simplesmente o direito de aprender) foram os motivos que levaram as educadoras Maria da Penha Rocha Santos, Marilena Cordeiro Fernandes de Jesus, Maria da Conceição Oliveira, Elizaute Nascimento Campos, Silvana Maria da Silva e Souza Pinto Sra. Luigia Bordoni, Rita Houri e Adilson de Angelo e os professores Rejany Santos Dominick e Santinho Ferreira, a alimentar a idéia de que o Araçá deveria florir. Para eles, o projeto não seria mais um dos muitos projetos acadêmicos arquivados e esquecidos nas inúmeras prateleiras das universidades. Redobrado os ânimos, o Araçá se tornou para os envolvidos um ideal de educação e de solidariedade.

O que deu vigor ao Araçá foi a sua integração ao PROFIC (Programa de Formação Interdisciplinar Continuada, da CEUNES - Coordenação Universitária Norte do Espírito Santo), que permitia aos alunos e professores da Universidade Federal do Espírito Santo uma participação de forma mais ativa e continuada. A Associação de Moradores Nova Esperança responsabilizou-se juridicamente pelo Projeto até outubro de 1996, ano em que o Araçá se constituiu juridicamente como uma ONG - Organização Não-Governamental – sem fins lucrativos com o nome de Centro Cultural Araçá. Assim, o Projeto Araçá tornava-se "frondoso".

Voluntários de vários segmentos (educadores, artistas e religiosos) e funcionários públicos, cedidos por alguns órgãos estaduais e federais aderiram à idéia e se juntaram ao grupo. Estas contribuições deu ao Projeto um caráter mais aberto e comunitário.Os primeiros espaços ocupados pelo Araçá foram o Abrigo do Conselho Tutelar e o galpão da Diocese de São Mateus, cedido pelo Bispo D. Aldo Gerna.O aumento do número de crianças e colaboradores e, conseqüentemente, das atividades exigiu uma estrutura maior. As atividades foram então transferidas para o Centro Comunitário Santa Luzia, antigo "Lar dos Velhinhos", igualmente cedido pela Diocese.Nesses dois anos de trabalho, os laços com a Prefeitura Municipal de São Mateus foram sendo construídos. O então prefeito Amocim Leite cedeu alguns funcionários e doou o terreno onde o Aracá fincou definitivamente suas raízes. Desde a construção até a inauguração de sua sede, em outubro de 1997, o Projeto contou com o apoio da Aracruz Celulose S.A, com a Petrobras e com a Prefeitura Municipal de São Mateus que mantêm a entidade até hoje.